A Santa Casa de Misericórdia de Pereira Barreto decidiu recorrer formalmente à Polícia Civil após uma sequência de publicações e comentários nas redes sociais envolvendo atendimentos realizados pela instituição e mortes de pacientes.
Em documento datado de 28 de setembro de 2026, a Santa Casa apresentou uma notícia-crime com requerimento de instauração de inquérito policial, além de solicitar a preservação de registros eletrônicos e a identificação dos responsáveis por publicações e comentários realizados no grupo de Facebook denominado “Desapega Mulheres”.
Segundo a instituição, foram identificadas mais de uma publicação e diversos comentários que relacionam a morte de dois pacientes a suposta negligência, ausência de diagnóstico ou falha no atendimento do hospital e de seus profissionais. Parte das manifestações teria sido feita por perfis cuja identidade, segundo a Santa Casa, não pode ser confirmada com segurança apenas pelas informações disponíveis nas contas.
A Santa Casa ressalta no documento que respeita o direito de crítica, a liberdade de expressão e o direito de pacientes e familiares questionarem os atendimentos médicos. A instituição argumenta, porém, que acusações públicas envolvendo negligência ou responsabilidade por mortes devem ser confrontadas com prontuários, exames e demais elementos técnicos.
Hospital pede que dois casos sejam investigados
Um dos episódios mencionados envolve a morte de uma criança. De acordo com a versão apresentada pela Santa Casa à Polícia Civil, antes de chegar ao hospital a criança já apresentava sintomas havia dias e teria procurado uma Unidade Básica de Saúde em diversas oportunidades durante aproximadamente dez dias, sem diagnóstico conclusivo naquele período.
A Santa Casa informou possuir o prontuário completo do período em que a criança esteve sob seus cuidados e colocou essa documentação à disposição das autoridades para análise técnica. Também pediu que eventual investigação considere toda a trajetória assistencial, desde os primeiros sintomas e atendimentos anteriores até a passagem pelo hospital e posterior transferência.
O segundo episódio envolve outro paciente que posteriormente morreu. Conforme a notícia-crime, ele teria chegado ao hospital em estado debilitado. A Santa Casa relata que foram realizados exames e que testes rápidos apresentaram resultados reagentes para HIV e sífilis. O documento acrescenta que, segundo informações que teriam sido fornecidas pela própria família aos profissionais, o paciente não estaria realizando tratamento para essas condições — circunstância que a própria instituição pede que seja confirmada documentalmente durante a investigação.
É importante destacar que essas informações representam a versão apresentada formalmente pela Santa Casa às autoridades. A investigação policial, caso instaurada, é que deverá reunir e confrontar os elementos necessários para esclarecer os acontecimentos.
Santa Casa quer identificação de perfis
Outro ponto central do pedido é descobrir quem está por trás de determinados perfis utilizados nas publicações.
A Santa Casa sustenta que não consegue saber, por meios próprios, se os autores possuem relação com os pacientes, se tiveram acesso direto às informações ou se estão reproduzindo afirmações feitas por terceiros. O documento pede ainda que seja verificada eventual atuação coordenada entre perfis, caso surjam elementos concretos que indiquem essa possibilidade.
Como as publicações podem ser apagadas ou modificadas, o hospital também solicita a preservação dos registros eletrônicos. Se houver necessidade de autorização judicial, pede que sejam buscados, dentro dos limites legais, os dados necessários para identificar os usuários responsáveis pelas contas investigadas.
O pedido apresentado à Polícia Civil inclui ainda a identificação e posterior oitiva dos responsáveis pelas manifestações, a análise dos documentos médicos, a eventual oitiva dos profissionais envolvidos e outras diligências consideradas necessárias pela autoridade policial.
Instituição pede apuração imparcial
No próprio documento, a Santa Casa afirma que não pretende antecipar uma conclusão criminal e defende uma investigação “oficial, técnica e imparcial”.
A instituição registra, inclusive, que, se houver falha assistencial, os elementos técnicos deverão demonstrá-la. Da mesma forma, sustenta que, se a documentação mostrar atendimento adequado e incompatibilidade entre os fatos documentados e as acusações publicadas, isso também deverá ser considerado pelas autoridades.
Ao final da notícia-crime, a Santa Casa volta a dizer que a medida não tem como objetivo impedir críticas ou manifestações legítimas de pacientes e familiares. Segundo a instituição, o objetivo é esclarecer oficialmente as acusações e permitir que eventual irregularidade existente também seja devidamente apurada.
Preocupação também com a segurança dos médicos
Além da controvérsia nas redes sociais, a direção da Santa Casa informou que vem adotando providências diante de episódios envolvendo a segurança física de médicos e outros profissionais.
Segundo as informações repassadas pela instituição, após uma ocorrência recente envolvendo tentativa de agressão contra profissionais no ambiente hospitalar, foi registrado boletim de ocorrência e solicitada apuração policial.
A preocupação, segundo a Santa Casa, é garantir que médicos e demais colaboradores possam exercer suas funções com segurança e tranquilidade, especialmente diante do clima criado após episódios recentes e da repercussão dos casos nas redes sociais.
A instituição também manifestou pesar pelas mortes ocorridas, destacando que a busca pela apuração das publicações não elimina o respeito à dor das famílias.
Agora, caberá às autoridades policiais analisar a documentação apresentada e definir as diligências cabíveis. Até a conclusão da apuração, as acusações de negligência e as alegações apresentadas em resposta pela Santa Casa devem ser tratadas como versões a serem verificadas tecnicamente, e não como conclusões já estabelecidas.
FONTE: A VOZ DAS CIDADES



